quinta-feira, fevereiro 15, 2007

É gélida nesta hora a tua ausência.


Foto de Luis Pinto

É gélida nesta hora a tua ausência,
Mais rude que o frio da sepultura,
É triste não sentir tua fragrância,
Quando te aconchego pela cintura.

Meus braços cansados por não te ter,
Jorram rios de tristeza misteriosa,
Procuram-te desesperados sem saber,
Se estás feliz, triste ou furiosa.

Passa o dia e a noite, amanhece,
É sempre a mesma madrasta, a vida
Destino fatal, não se cumpre a prece.

Desolado, anseio contigo a partida,
Ao destino que mais ninguém conhece,
Rezando que do destino não sobreviva.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Brinco com essa marota boca.


Foto de Veronica Melo

Brinco com essa marota boca,
Que vem em tons escarlate,
Luto com essa serpente louca,
Que me enfeitiça com arte.

Ao teu toque neste instante,
A febre sobe, e sem uma meta,
Oiço o coração palpitante,
Tal como a forma mais erecta.

Palmilho-te geograficamente,
Em vales e colinas de louvores,
Perdendo-me por ti eternamente,

Suspirando e chorando de amores
Mesmo com o norte incoerente,
Apenas em ti, busco teus favores.

terça-feira, novembro 21, 2006

O teu corpo arde, labaredas em festa.


Foto de Sandra Brito

O teu corpo arde, labaredas em festa,
Em cada afago soltam-se centelhas mil,
E junto ao teu fogo, deliro já febril,
Entrando de rompante, o Ser que resta,

Não quero saber de jogos de sedução,
Descontroladamente a situação inverte,
De escravo a mestre, sem educação,
Tua chama se inflama, e isso me diverte.

E em cada labareda que me trespasse,
São sinais que fogem mil mensageiros,
Anunciando-me momentos derradeiros,
Onde farás a entrega do teu disfarce.

Nesses mistérios, suados pelo querer,
Num refúgio em chamas, queimam de prazer.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Toca infinitamente, que desgosto.


Foto de Carla

Toca infinitamente, que desgosto,
Perdem-se as palavras sussurrantes,
Impõe-se o silêncio a dois amantes,
Fica o sentimento d'amor sem rosto.

Faz tempo que não te falo meu Amor,
E no fim da linha fica a perdição,
E a droga que me deixa sem temor,
Sabes, por ti sou louco de paixão.

E no fim dessa linha agora perdida,
Fica a mão suspensa no mudo telefone,
Algemada pelo tempo, abrindo a ferida,
E com a tua ausência aumenta a fome.

Aumenta o sentimento sem sentido,
O beijo sem gosto, o prazer perdido.

domingo, outubro 29, 2006

Num momento de existência temperada.

Foto de Jana Vieras

Num momento de existência temperada,
Não mais consigo ficar em parte certa,
E nesta louca ânsia que me é incerta,
Procuro em ti a derradeira pousada.

Algo, que me enraíze intensamente,
E num quadro de loucura pincelada,
Que transformando-me tão de repente,
Como a chuva, ao molhar árida camada.

Transformar a fome e a sede em raízes,
Neste terreno baldio por construir,
Transformando dois réus em juízes,
Sem dor, só o vermelho amor a fluir.

E nessa doçura inefável do teu corpo,
Todo o meu ser, encontrar novo sopro.

sábado, outubro 21, 2006

A marcha do tempo


Foto de Rui Matos

Tic Tac, som do tempo passando,
e na inocência de sua cadência,
apena deixa, rastos de ausência.
são os rastos de Tic Tac voando.

Em frente vai, sem um tic incerto,
e quem parar, ouve um tac aberto,
no tic seguinte, perde o instante,
do tac passado, que infernizante.

Mas passa o tempo, também o desejo,
ouve-se o tic tac, já não é amado,
entristecido estou, um tic bocejo,
e um tac liberto, bem alucinado.

Com tempo a terra cobre tudo de graça,
percorre os vivos e os mortos abraça.

terça-feira, outubro 17, 2006

Como deixar de fumar?


Foto de Hugo

A tua silhueta na penumbra desenho,
Refugio-me no interior de lembranças,
A fútil segurança com que me empenho
De manter vivas falsas esperanças.

Esperança, bengala psi dos crentes,
Mente-nos descaradamente sem cessar,
Mente-nos mostrando todos os dentes,
E o parco tempo rouba-nos sem parar.

Fica manchada toda a minha existência,
Na sexual danação que tivemos os dois.
Por ter errado assim na persistência,
Fique o sonho extinto sem alucinações.

Como se pode salvar de um crasso erro?
Salvamo-nos passando pelo seu enterro.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Duas bocas, estão loucas, e tremem.


Foto de Miguel Moniz

Duas bocas, estão loucas, e tremem,
As doces línguas, são moucas e gemem,
Não fogem, mas invadem, como selvagens,
Outras bocas e línguas, outras margens.

Tocam, estão nuas, sempre nuas, as duas,
Estão vivas, são dunas, são meias luas,
Independentes, impacientes, são carentes,
Protestam, atacam, mordem os presentes.

E dançam e nadam e suam, insatisfeitas,
Navegam corpos nos rios por si feitas,
Ateiam fogos, em corpos já ensopados,
E seus beijos são poemas declamados.

Poemas em versos de rosas perfumados,
Rimando nas línguas, de dois achados.

domingo, setembro 24, 2006

O aborrecimento desta vida...


Foto de Maria Flores

Um terço da vida, é na cama cumprido,
Nem sempre gozando. É mais, dormindo.
O sono alimenta os momentos sagrados,
Os dois terços de vida mais agitados.

Outro terço gasto, resulta na labuta,
Voluntariamente, por amor ou à bruta,
Labuta o rico, o pobre e o ignorante,
É chato, é refúgio, e é gratificante.

Um terço resta, e quando bem ocupada,
Vida com graça, bela e despreocupada,
Mas o oposto transforma-se em torpor,
É tédio, estagnação, torna-se horror.

Os terços da vida, nesta gente ficou,
Desta imensa escravidão, nada deixou.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Grito de dor por me achar metade.


Foto de Carlos Pereira

Grito de dor por me achar metade,
E da perda morre-se-me os sentidos,
D'amor, confiança, até a saudade,
Se perde na companhia dos vencidos.

Não mais carrego em luz a idade,
Mas o fardo que vai escurecendo.
Jaz já metade de minha claridade,
O tempo, o que resta vai comendo.

Zarolho que sou, não mais acerto,
Nem um sopro dessa meia, nem ais,
Tão pouco essa sombra esquecida.

Música minha, vida em desconcerto!
O que me cantas quando assim olhais?
Roubas-me a alma matando-me a vida.